Joel Alves alude, já de início, que grande parte das redes de saneamento em operação hoje foi projetada décadas atrás, para uma população menor, um volume de resíduo diferente e uma cidade que ocupava outro desenho territorial. Sendo assim, ampliar tubulação onde já não cabe, abrir nova área de destinação onde o espaço já não sobra, esticar contrato onde a capacidade original já foi superada há anos, sem que ninguém pare para redesenhar o sistema do zero.
Esse remendo permanente é sintoma de um problema maior: cidades continuam tratando saneamento e gestão de resíduos como sistemas separados, quando, na prática, ambos coexistem no mesmo espaço, dividem a mesma verba e o mesmo planejamento territorial. Repensar infraestrutura urbana a partir da economia circular significa tratar os dois como parte de um mesmo desenho, não como departamentos que operam isolados um do outro.
O desenho antigo da infraestrutura urbana separava água, esgoto e lixo
Cidades planejadas ao longo do século passado trataram abastecimento de água, coleta de esgoto e gestão de resíduos sólidos como três sistemas paralelos, cada um com sua própria rede, seu próprio orçamento e sua própria equipe técnica. Essa separação fazia sentido quando o volume de cada um era pequeno o suficiente para caber isoladamente na malha urbana disponível.
O crescimento das cidades quebrou essa lógica sem que o desenho institucional acompanhasse a mudança. Hoje, decisões sobre onde ampliar rede de esgoto, onde alocar nova central de triagem e onde reforçar abastecimento de água acabam competindo pelo mesmo espaço físico e pela mesma verba de investimento, mas continuam sendo tomadas por equipes que raramente conversam entre si, dentro de estruturas administrativas que nunca foram desenhadas para decidir as três coisas juntas.
Como a economia circular redesenha essa equação?
A economia circular propõe tratar resíduo, água tratada e energia como insumos que circulam entre sistemas, em vez de descartes que saem de um sistema para nunca mais voltar. Uma estação de tratamento de esgoto pode gerar biogás aproveitado por outro ponto da rede; um resíduo orgânico pode virar composto usado em área verde da própria cidade; água de reúso pode abastecer processo industrial que antes dependia de captação nova. Joel Alves indica esse tipo de integração como o ponto em que infraestrutura ambiental deixa de ser custo isolado e passa a compor um sistema com valor próprio.
Esse tipo de planejamento integrado só avança quando existe instância de decisão capaz de olhar água, esgoto e resíduo ao mesmo tempo, porque cada sistema isolado tende a otimizar apenas o próprio orçamento, mesmo quando essa otimização local encarece o sistema como um todo.

O contraste entre remendar e redesenhar
Remendar a infraestrutura existente é sempre mais barato no curto prazo: ampliar uma rede já instalada custa menos do que projetar um sistema novo do zero. Esse cálculo imediato explica por que a maioria das cidades opta por esticar o modelo antigo em vez de redesenhá-lo a partir de uma lógica circular, mesmo quando o remendo acumula custo ao longo dos anos.
O problema aparece quando o remendo deixa de ser suficiente: uma rede que já opera no limite não absorve mais crescimento populacional sem intervenção estrutural, e, nesse ponto, o custo de continuar remendando ultrapassa o custo de redesenhar. Joel Alves comenta que a maior parte das cidades só inicia esse redesenho depois que o sistema antigo já falhou publicamente, quando poderia ter planejado a transição de forma gradual e mais barata.
Planejamento como decisão política, não só técnica
Integrar saneamento e resíduo em um único desenho de infraestrutura urbana não é apenas uma questão de engenharia: depende de decisão política capaz de reorganizar orçamento, instância de governança e prioridade entre secretarias que hoje operam de forma isolada. Nenhuma tecnologia de reúso ou recuperação energética avança sozinha sem essa reorganização institucional por trás.
Cidades que avançaram nesse modelo tiveram, em algum momento, uma decisão explícita de tratar infraestrutura ambiental como prioridade de mandato, e não apenas como pauta técnica de segundo plano. É esse compromisso político, mais do que a tecnologia disponível, que determina o ritmo da transição, informa Joel Alves.
A cidade que resolve
Quem acompanha o avanço da economia circular na infraestrutura urbana tende a perceber, cidade após cidade, que o modelo herdado do século passado está mais próximo do limite do que costuma parecer, ainda que os sinais mais visíveis desse esgotamento apareçam primeiro nas contas públicas e só depois nas ruas. Joel Alves pontua que redesenhar infraestrutura a partir dessa lógica deixa de ser questão de tendência e passa a ser questão de prazo: mais cedo ou mais tarde, o custo de sustentar o modelo antigo ultrapassa o custo de reorganizar o sistema por inteiro.
Acompanhar, nos próximos anos, quais cidades decidem antecipar essa transição e quais preferem esperar o sistema falhar antes de agir é uma forma direta de entender para onde caminha o desenho urbano do país e qual conta cada gestão está disposta a pagar por essa escolha.